quinta-feira, 12 de abril de 2012

As Pedras no Caminho de Drummond

As Pedras no Caminho de Drummond
 
Fui muito criticado e ridicularizado quando jovem. O meu poema “No meio do caminho”, composto de dez versos, repete de propósito sete vezes as palavras “tinha” e “pedra”, e seis vezes as palavras “meio” e “caminho”. Isto foi julgado escandaloso; hoje o poema está traduzido em 17 línguas, e me diverti publicando um livro de 194 páginas contendo as descomposturas mais indignadas contra ele, e também os elogios mais entusiásticos. Achavam-me idiota ou palhaço; suportei os ataques porque ao mesmo tempo recebia o estímulo de meus companheiros de geração e de pessoas mais velhas, nas quais depositava confiança, pela capacidade intelectual e pela honestidade de julgamento que as distinguiam.
Atualmente, a maioria das opiniões é favorável à minha poesia, e direi até que há talvez excesso de benevolência com relação a ela. Não tenho pretensão de ser mestre em coisa alguma, e conheço minhas limitações. Depois de praticar a literatura durante mais de 60 anos, publicando 16 livros de prosa e 25 de poesia, não cultivo ilusões, mas continuo acreditando com o mesmo fervor na beleza da palavra e no texto elaborado com arte.
Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade da sua condição.

ANDRADE, Carlos Drummond. Antologia poética, São Paulo: Record, 1992.

Leitura do poema "No meio do caminho", de Carlos Drummond de Andrade, em 11 idiomas.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Grande Carlos Drummond de escrita libertaria.
    Abraços.

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)

    Convido para que leia e comente “REALIDADES SUBVERTIDAS” no http://jefhcardoso.blogspot.com/

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