quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Rodadas de Poemas com Elisa Lucinda



De Elisa Lucinda
"Ele"

 A poetisa Elisa Lucinda declamando o poema "Ele" 
em um dos debates do "Por que a gente é assim?".

Já começa a beijar o meu pescoço
com sua boca meio gelada meio doce,
já começa a abrir-me seus braços
como se meu namorado fosse,
já começa a beijar a minha mão,
a morder-me devagar os dedos,
já começa a afugentar-me os medos
e dar cetim de pijama aos meus segredos.
Todo ano é assim:
vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,
vem ele disposto a quebrar meus galhos
e a varrer minhas folhas secas.
Já começa a soprar minha nuca
com sua temperatura de macho,
já começa a acender meu facho
e dar frescor às minhas clareiras.
Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,
seu discurso sedutor de renovação,
suas palavras coloridas,
e eu estou na sua mão.

Todo ano é assim:
mancomunado com o vento, seu moleque de recados,
esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,
levanta-me a saia, beija meus pés,
lábios frios e língua quente,
calça minhas meias delicadamente
e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,
meu jogo e minhas varetas.
Parece Deus, posto que está no céu, na terra,
nas inúmeras paisagens,
na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,
dentro e fora dos meus vestidos,
na minha cama, nos meus sentidos.

Todo ano é assim:
já começa a me amar esse atrevido,
meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,
meu preferido.

 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Rodadas de Poemas com Elisa Lucinda



Libação
Elisa Lucinda

Imagem: Junior Aragão


É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a ploriferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores

As consequências cachos,
as consequências leite,
as consequências folhas
as consequências frutos,
são suas cores mais belas

É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza

É da vocação da vida a beleza
e a nós cabe não diminuí-la, não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio

Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro

Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.

A vida não tem ensaio
mas tem novas chances

Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores

Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!

LUCINDA, Elisa. “Libação”. In: Euteamo e suas estréias. Rio de Janeiro, RJ: Record, 6ª ed., 2007, p. 38.



terça-feira, 25 de setembro de 2012

Elisa Lucinda sob a ótica das crianças



A menina transparente
Elisa Lucinda

 Poema: A menina transparente
Poetisa: Elisa Lucinda
Narração: Alunos 4º ano B
Escola Joca de Souza Oliveira
Professora: Gerlane Fernandes
Filme produzido por: José Carlos de Amorim -- NTE-07
Juazeiro- BA

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Rodadas de Poemas com Elisa Lucinda



Credo
Elisa Lucinda
 Imagem: Paulo Soares (ESALQ/Acom)


De tal modo é,
que eu jamais negá-lo poderia:
sou agarrada na saia da poesia!
Para dar um passeio que seja,
uma viagem de carro, avião ou trem,
à montanha, à praia, ao campo,
uma ida a um consultório
com qualquer possibilidade, ínfima que seja, de espera,
passo logo a mão nela pra sair.
É um Quintana, uma Adélia, uma Cecília, um Pessoa
ou qualquer outro a quem eu ame me unir.
Porque sou humano e creio no divino da palavra,
pra mim é um oráculo a poesia!
É meu tarô, meu baralho, meu tricot,
meu i ching, meu dicionário, meu cristal clarividente, meus búzios,
meu copo d'água, meu conselho, meu colo de avô,
a explicação ambulante para tudo o que pulsa e arde.
A poesia é síntese filosófica, fonte de sabedoria, e bíblia dos que,
como eu, crêem na eternidade do verbo,
na ressurreição da tarde
e na vida bela.
Amém!

domingo, 23 de setembro de 2012

Rodadas de Poemas com Elisa Lucinda



O poema dos coletivos
Elisa Lucinda



Valham-me meus plurais!
A elegância dos coletivos que me deflora.
A  errância dos meus erros
sempre no meio dos assuntos,
a errância dos meus medos
sempre no meio dos assuntos!
Ah, enxame, alcateia, resma, califa, chusma, cardume, elenco, manada, matilha, frota, esquadrilha...
mais nada de mim levarás sem que eu vá também junto.
Sem que eu siga o rebanho das negras ovelhas com  pelos jamaicanos;
Ah, bando de pássaros que levam minha alma no bico!
Ah, vara, cambada, corja de vagabundos... por onde bares me esqueceram?
Ah, baderneiros, em que tom, em oitava me entoaram?
Valham-me meus punhais
Que esqueci de mandar afinar meu piano!
Que esqueci que planos eu faria
pra quando atravessasse os arquipélagos, as cordilheiras...
Pra quando eu me abandonasse de vez numa deserta ilha,
pra quando o meu tratado não fosse o das Tordesilhas!
Ô meu Deus, desde quando tomei gosto pelas rimas?
Ô meu Deus, em que data me emaranhei pra sempre no Vesúvio das Palavras?
Ah, coletivos de socos sons,
Ah, coletivos de socos bons,
Ah, porrada!