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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Rodadas de Poemas com Adélia Prado



De Adélia Prado
Poema Começado no Fim




Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Rodadas de Poemas com Adélia Prado



De Adélia Prado
Tão bom aqui





Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui para rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
Tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestionamos elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
Em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
Eu nada sei de mim.

Texto extraído do livro “A duração do dia”, Ed. Record, 2010 - Rio de Janeiro (RJ), pág. 09.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Rodadas de Poemas com Adélia Prado



De Adélia Prado
Bilhete em papel rosa



A meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
"o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo".
Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo tão é negro,
eu vivo tão perturbada, pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vias ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Rodadas de Poemas com Adélia Prado



De Adélia Prado
Leitura



Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras, 
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha 
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas 
fora do seu tempo desejadas. 
Ao longo do muro eram talhas de barro. 
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo 
que lá fora o mundo havia parado de calor. 
Depois encontrei meu pai, que me fez festa 
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria, 
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
 caçava o que fazer pra gastar sua alegria: 
onde está meu formão, minha vara de pescar, 
cadê minha pinga, meu vidro de café? 
Eu sempre sonho que uma coisa gera, 
nunca nada está morto. 
O que não parece vivo, aduba. 
O que parece estático, espera. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Rodadas de Poemas com Adélia Prado



De Adélia Prado
O amor no éter



Há dentro de mim uma paisagem 
entre meio-dia e duas horas da tarde. 
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,  
entram e não neste lugar de memória, 
uma lagoa rasa com caniço na margem. 
Habito nele, quando os desejos do corpo, 
a metafísica, exclamam: 
como és bonito! 
Quero escrever-te até encontrar 
onde segregas tanto sentimento. 
Pensas em mim, teu meio-riso secreto 
atravessa mar e montanha, 
me sobressalta em arrepios, 
o amor sobre o natural. 
O corpo é leve como a alma, 
os minerais voam como borboletas. 
Tudo deste lugar 
entre meio-dia e duas horas da tarde.