sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Rodadas de Poemas com Cecília Meireles



De Cecília Meireles
                                   Motivo




Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Rodadas de Poemas com Cecília Meireles


De Cecília Meireles
Retrato



Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Rodadas de Poemas com Cecília Meireles



De Cecília Meireles
O Tempo Seca o Amor



 
O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.

Cecília Meireles, in 'Retrato Natural'



Biografia
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 1901. Foi criada pela avó materna, porque seus pais morreram quando ela era criança. Desde menina gostava de ler e, aos 16 anos, formou-se professora.
Aos 18, escreveu Espectros, seu primeiro livro de poesias. Nessa época, as mulheres não votavam, dependiam do marido e dificilmente desenvolviam uma carreira profissional. Mas Cecília conseguiu ganhar espaço na área da literatura e da educação. Escreveu mais de 20 livros, a maioria de poemas.
Foi muito premiada pela qualidade de seus textos, que falam do amor, da morte e da vida com grande sensibilidade. Pesquisou bastante para escrever uma de suas principais obras, O Romanceiro da Inconfidência (1953), que narra, em forma de poema, a história de Tiradentes e dos inconfidentes mineiros.
Também escreveu para crianças, e seu livro Ou Isto, ou Aquilo é o mais famoso nesse gênero. Morreu no Rio de Janeiro, em 1964

Fonte: 


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Rodadas de Poemas com Carlos Drummond de Andrade



De Carlos Drummond de Andrade
Cortar o tempo


 Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
...Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente para você,
desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
...A esperança renovada.

Para você,
desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe
desejar tantas coisas
mas nada seria suficiente…
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada
minuto, rumo a sua felicidade!

 Carlos Drummond Andrade (Itariba, 31/10/1902 – Rio de Janeiro, 17/8/1987)
Poeta, contista e cronista brasileiro, licenciado em Farmácia.